Voltar ao blog

IA no Brasil e o CEIA

O que o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG já coloca em operação, e o que o país ainda precisa construir.

Quando se fala de inteligência artificial no Brasil, a conversa quase sempre começa longe: Vale do Silício, modelo fechado, API em dólar. Boa parte do que já está em uso no país, porém, foi feita perto da gente. Em Goiânia, no câmpus Samambaia da UFG, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial — o CEIA — é um dos pontos onde essa história acontece de fato.

Moro em Goiânia e passo pela UFG. Este texto é um mapa do que o CEIA é, do que já está rodando no Brasil e do que ainda falta.

O que é o CEIA

O CEIA nasceu em 2019 como política pública da FAPEG, a fundação de pesquisa de Goiás, dentro do Instituto de Informática da UFG. O desenho é o da tríplice hélice: universidade, governo e empresa no mesmo projeto.

Desde 2020 o centro é unidade Embrapii. Isso muda o financiamento: a empresa divide o risco de inovar com a unidade, em vez de só comprar um relatório pronto.

No site oficial, o CEIA declara mais de 100 projetos contratados, mais de 90 parceiros, mais de 750 colaboradores e mais de R$ 40 milhões em infraestrutura. Os eixos que eles mesmos listam são saúde, logística, segurança, energia e cidades inteligentes. O agro entra nas parcerias.

Dentro do CEIA também está o AKCIT, o Centro de Competência Embrapii em tecnologias imersivas: o braço de cocriação, não só de paper.

Como isso aparece no dia a dia

IA no Brasil não é só chatbot. Os casos mais concretos do CEIA estão em órgão público e em operação.

GAIA, um modelo em português brasileiro. Em junho de 2025, no Google for Brasil, o Google DeepMind anunciou o GAIA, feito no CEIA em parceria com a ABRIA e as startups Amadeus AI e Nama, com base no Gemma 3. O professor Celso Camilo descreveu o diferencial com clareza: faz o que as outras IAs já fazem, com mais informação semântica do português brasileiro. O g1 registrou o anúncio.

O modelo já é usado no Tribunal de Contas do Estado de Goiás. Auditores recuperam processos e peças parecidas com mais velocidade. Maurício Barros, chefe de Serviço de IA do TCE-GO, resume o ganho na ponta: o olhar do tribunal sobre rodovia e merenda escolar. O GAIA está no Hugging Face, aberto para quem quiser adaptar.

IAGO na Estrada. No mesmo TCE-GO, o CEIA e o INF/UFG automatizam a fiscalização do asfalto nas rodovias estaduais. Visão computacional identifica, mede e classifica falha na pista. O equipamento de campo junta câmera, GPS e IMU. O pipeline vai da coleta ao painel do auditor. Em agosto de 2026 o centro apresentou o andamento do projeto.

Gestão pública e setor produtivo. No site do CEIA aparecem, entre outros, TCE-GO, Procuradoria Geral do Estado, Copel, Natura, Synkar, Americas Health. Energia, jurídico, logística, saúde, crédito, segurança. Não é um laboratório isolado. É contrato com quem opera.

O restante do país

O CEIA não é o único lugar em que o Brasil usa IA. Ele é um recorte nítido do que já funciona quando universidade e demanda se encontram.

No plano federal, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024–2028 prevê R$ 23 bilhões em infraestrutura, formação, serviço público, empresa e regulação. Em agosto de 2026 o governo anunciou um supercomputador no Rio Grande do Norte, no PAX, como parte desse plano: reduzir a dependência de capacidade contratada fora do país.

No SUS, o MCTI apresentou o projeto do Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente, no complexo do Hospital das Clínicas da USP, com IA em diagnóstico e gestão clínica. Ainda é obra. Mostra a direção.

No Banco Central, IA no sistema financeiro está entre as prioridades regulatórias de 2025 e 2026, ao lado do Pix. Uso com regra, não só com pressa.

Renderizando diagrama Mermaid...

O que ainda falta

Em entrevista à Exame, Telma Woerle de Lima Soares, diretora executiva do CEIA, foi direta: o Brasil está atrás na corrida por uma IA própria. Os dois obstáculos principais não se resolvem só com anúncio. Falta infraestrutura computacional. Faltam dados públicos em português no volume que um modelo de ponta exige.

A saída que ela aponta não é copiar o ChatGPT. É especializar onde o Brasil tem dado que ninguém mais tem: saúde, ambiente, biodiversidade.

Isso combina com o que o CEIA já faz. Modelo em português. Fiscalização de rodovia. Energia. Agro. Órgão de controle. Menos vitrine, mais operação.

Por que isso importa daqui

A UFG tem curso de Inteligência Artificial. Goiânia deixou de ser só consumidor de ferramenta gringa. Tem centro, contrato, modelo publicado e aluno no meio do projeto.

Quem desenvolve no Brasil não precisa esperar o Vale inventar o nosso caso de uso. Asfalto, merenda, processo no tribunal, português brasileiro: isso já está na mesa. O CEIA é a prova mais próxima que eu tenho.

Fontes

Hoje