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Você ainda escreve?

Sobre e para textos e códigos

Outro dia fui a um evento de Devs e escutei a seguinte indagação:

"Você ainda escreve código na mão?? Cheio de IA por aí."

Me chamou a atenção a indignação do sujeito; o cara simplesmente achou anormal a escrita de um código a mão.

Hoje parei pra refletir: caramba, faz muito tempo que não escrevo textos nem código. Por mais simples que sejam, tenho delegado tudo para a IA. O que, definitivamente, é um crime e um convite para a burrice, na medida em que reconheço a escrita como minha forma primária de aprendizado.

Por conclusão lógica, isso significa que: ao abandonar a escrita, eu abandono a sutil arte de aprender, criar e pensar. E vamos combinar que hoje tá chique ser intelectual (ou se parecer com um).

Talvez escrever seja uma das únicas coisas que ainda conseguem reconciliar mecânica, intelecto e subconsciência. Você precisa pensar a saída do código que o seu processador (o cérebro) acabou de computar e, pelos seus barramentos, depositar aquele dado no papel ou na tela. No final, IA é gente como a gente, alucina que é uma beleza, mas, pelo menos em teoria, ainda deveríamos ser o estado da arte.


Então decidi tocar este blog para não parar de criar. Criar um texto bobo que seja, contar uma história ou discutir um assunto técnico em diversos domínios de conhecimento. E, além disso, para você, meu caro leitor, conhecer um pouco do que e de como eu penso.

Talvez assim você confie em mim. Se não confiar o suficiente, pode pegar meus textos e pedir uma análise para uma inteligência artificial; talvez ela te dê todos os traços da minha personalidade (alucinamos de formas parecidas). E se ninguém ler, tudo certo. Nem toda criação merece ser vista, mas merece existir. (aquele meme da caneta pegando fogo)


Sou desenvolvedor, e ficou impossível ignorar a ascensão extravagante e milagrosa da inteligência artificial — tecnologia disruptiva que veio para finalmente substituir programadores, médicos e democratizar o conhecimento.

Mas, na realidade, é diferente: ao meu ver, tivemos um boom da ignorância democratizada. No meu raso julgamento, constato que uma tecnologia que te faz suprimir a sua criatividade e a ignorar coisas banais (como escrever algo criado por você mesmo) em troca de um suposto descanso cerebral é matar a sua humanidade e podar a sua capacidade.

"A IA é igual cerveja: use com moderação" — diria a propaganda do Detran no carnaval.

"Pergunta pro ChatGPT."
"Pede pro ChatGPT."

Caramba… cara, é só pensar! Permita-se alucinar (dentro dos limites da lei amigo!), faz parte do rock!

Sobre ler: eu sei que talvez assistir a um vídeo possa ser mais cômodo, mas pode ser sincero comigo, você nem escuta o conteúdo do vídeo, só quer um plano de fundo. Então, tente ler. Leia uma newsletter qualquer escrita por IA, igual a todos os posts do LinkedIn.

Porque ler implica pensar, imaginar, tentar entrar na mente do escritor e enxergar sob a ótica dele. Olha que insano: imagina enxergar pela ótica do cara que só posta conteúdo de IA (barata, inclusive) no LinkedIn. Insano.

Por isso, fiquei com a escrita. Isso pode me tornar um intelectual (o que tá na moda hoje em dia) ou um ermitão (mas eu gosto da ideia de ser um caranguejo).


Glossário

  • Barramentos: Em computação, são os caminhos de comunicação por onde os dados trafegam entre os componentes de um sistema (como do processador para a memória). Na metáfora do texto, é o caminho entre o pensamento (cérebro) e a ação motora de escrever.
  • Estado da Arte: O nível mais alto de desenvolvimento alcançado em uma técnica, tecnologia ou área científica em um determinado momento. O ápice da capacidade atual.
  • Tecnologia Disruptiva: Uma inovação tecnológica que altera profundamente a forma como o mercado, as indústrias ou os próprios usuários operam, substituindo padrões estabelecidos.
  • Alucinar (no contexto de IA): Termo técnico usado quando um modelo de Inteligência Artificial gera informações falsas, inventadas ou sem sentido lógico, mas as apresenta com extrema confiança como se fossem fatos.
  • Newsletter: Boletim informativo publicado periodicamente, geralmente distribuído por e-mail para uma lista de assinantes interessados em um tema específico.
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